Quadro da dor.

por Julian Stella

Enquanto a noite cai e a lua tudo observa com seu brilho prata, Ela pensa em como será o outro dia. No açoite do relento, o frio lhe lembra do que não é cômodo e da insegurança do amanhã. De como somos todos iguais, sob a redoma da noite e o fulgente brilho do luar. O olhar pensativo e a coragem pesam em sua face ao mesmo tempo em que sua prole indefesa recosta-se em seu colo. Aos olhos dos transeuntes podem ser a escória da sociedade ou a simples falta de oportunidade ao cidadão comum. Poderiam ser predadores e não presa se a vida fosse baseada no pêndulo da justiça. A criança, ainda alheia ao futuro ou as necessidades do presente, se acomoda no ventre da mãe levando a mão aos olhos enquanto Morfeu, o Deus grego dos sonhos, parece lhe beijar a face. Renegados como um fruto proibido ou um par de proscritos, mãe e filho atravessam a noite prostrados como em uma postura de súplica e sequer notam a lente a fitá-los. E imóvel, o fotógrafo prende a respiração enquanto eterniza em um clique o cotidiano ali representado em um quadro da dor.

(texto: L. Maldonalle)