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Blog do Fotógrafo Julian Stella.

Casebre

Casebre

Uma casa. A princípio é isso que se vê. Mas essa é a beleza do detalhe. Quase sempre, é mais do que os olhos podem ver. Então, me diga o que seus olhos vêem além do mero detalhe? A escritora americana Shirley Jackson, em um de seus grandes romances disse: “a casa da colina nada sã erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas. Existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros oitenta”. Claramente não estamos diante da mansão mal assombrada do romance da Sra. Jackson. Aqui as paredes erguidas sobre barro e areia, longe de firmes assoalhos ou qualquer glamour de uma época vitoriana, serviram de refúgio. Um lugar onde a alma dos escravos podia respirar longe do açoite de chicotes, havia respeito, um pequeno ponto final de sofrimento além de um lugar para a arte. Apesar de seu ar triste em uma construção rural longe o suficiente de selvagens senhorios rudes, o lugar servia como um ponto de festejo e celebração à comunidade da linhagem e a cultura negra. Além daquela soleira, meus amigos, não havia lugar para o preconceito. Feche os olhos por um momento e talvez você consiga ouvi-los cantar, dançando com enormes sorrisos brancos em suas lindas faces de ébano. O flash da máquina parece disparar como um raio prata em um céu em noite de tormenta. Aquilo sobre ver além dos detalhes é algo comum para um homem por trás da lente. E ele parece não se conter diante à beleza e a cor daquele passado. Se ali presentes, o exército de heróis em pele bronzeada o aceitariam de livre e bom grado, reconheceriam sua bondade pelo sorriso. Certamente o clique de sua máquina seria ouvido muito além daquela soleira. (texto. L.M) facebook.com/luismaldonalleescritor  twitter.com/maldonalle

Observante

Observante

O Pouco há para se ver quando olhos absortos se esquecem do que claramente existe à nossa volta. Aqui, um solitário banco jaz agredido pelas intempéries do tempo, dia após dia. Sua madeira, ainda em um bom aspecto, poderia ser a testemunha de mil tramas a se desenrolar. Vidas a lhe contar os mais íntimos segredos, sonhos e pensamentos. A seu redor galhos, folhas e abetos parecem sorrir extasiados com o Sol sempre a soprar enquanto a superfície espelhada do lago contorna toda a paisagem. Alguns o escolhem como assento, ora para divagar e refletir, ora para um merecido descanso cercado pelo verde incontrolável da natureza. O mais certo é que casais, sobre ele, ja discutiram o futuro assim como restauraram paixões. E, incólume com um gigante, um eterno guerreiro de madeira, ele lá continua. À medida que pessoas, amores e vidas vem e vão, ele lá estará. Se olharmos com um pouco mais de atenção, ele até parece saber que está sendo fotografado.   (texto. L. Maldonalle) facebook.com/luismaldonalleescritor  twitter.com/maldonalle

Pause

Pausa

O ferrolho de aço se projeta sobre a oval tampa de madeira. Uma breve e rápida olhadela e algo de medieval poder-se-ia saltar diante dos nossos olhos. O que aquela antiga trava de aço estaria escondendo? Um reluzente tesouro capaz de ofuscar o próprio brilho do sol ou algo impensável como um mistério tão antigo, quanto o próprio tempo. Como um capricho que reflexos e sombras são capazes de fazer  – às vezes confundindo e dando estranhas formas à nossa mente – um enorme símbolo da pausa é sugerido pela sombra. E como uma sinfonia construída de escuridão e madeira, refletida em um intervalo de silêncio, a geométrica circunferência feita de arcos se cala absolutamente em sua estática e estacada pose. E, sorrateiro como um uma fria corrente de ar, daquelas que correm através de frestas e janelas abertas, o nosso personagem, o homem atrás da lente observa e registra quase alheio… porém, encantado com o que pode ver mais uma vez através de sua lente. (texto. L. Maldonalle)

Hastes de Simplicidade

Hastes de Simplicidade

Duas hastes de enorme simplicidade que se dividem ao meio, sobrepõem-se em um intervalo geometricamente linear, conhecidos como; Cruz. Contra a luz, podemos, talvez cabisbaixos, nos sentir pequenos diante o céu cor de chumbo, que se estende como uma redoma. A cruz parece olhar e exigir como um rei, seu lugar de realeza entre traços, sombras e riscos. O grande monólito da esperança humana. O simples símbolo da fé que atravessou a história da humanidade, o antigo e reles souvenir de madeira que abrigou o Salvador. Por vezes simbolizando a angústia, dor e salvação. Incansável, ela continua de pé. E por mais que o austero e plúmbeo firmamento se projete no alto, sobre sua estrutura, é ela quem parece sorrir para a lente. Enquanto o telhado se ergue à sombra da Cruz, como uma guarda real. Em um único e rápido momento, simples como um piscar de olhos; sombras, efeitos e um céu de granito se misturam. Expondo mais que uma mera questão estética entre o gótico e o fantástico, travestida mesmo que por um breve segundo, pelo sombrio contorno da luz. E em algum momento…podemos nos perguntar: Quem está realmente a observar quem? (L.Maldonalle)

Jardim de folhas brancas

Jardim Branco

Incólume, decidido como um grande monólito da resignação, nosso personagem, o fotógrafo, aguarda imóvel como um enorme bloco de basalto. No extenuante sol que chicoteia sua carcaça, espera como os antigos esperavam a hora exata da colheita. No mortificante frio, se agasalha sem deixar de perceber as árvores e o quadro primaveril que brota diante dos seus olhos. Por vezes, caminha sob o abobadado túnel feito de troncos e folhas, que se estendem como um elegante tapete à sua frente. Ali, naquele belíssimo momento, poder-se-ia curvar diante a gigantesca demonstração da natureza, como um súdito da beleza selvagem. Enquanto isso, alguns galhos parecem mover-se ao menor dos ventos, em busca da pose perfeita para o fotógrafoFinos ramos com folhas em suas pontas, que mais parecem longos dedos, ajeitam-se em pleno ar, como se dissessem: ‘’Estamos prontos ‘’. E, neste único momento, onde a natureza parece ganhar vida de forma mágica e simples como o nascer de um novo dia, a mística áurea do primevo e natural santuário, é capturada em um sublime e efêmero momento. Graças à insistência, a paixão e os olhos de nosso herói.  (Texto: L.Maldonalle)

Ternura

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Vivo de capturar o melhor momento, o exato instante em que as cores se revelam. Por um breve momento, tudo parece se estacar a minha volta, o ar, o vento, o mundo. Assim, através daquele eterno segundo, retratar o que foi visto pela lente, é a lei. A céu aberto, transformo o brilhante e incandescente dia, que arde além do firmamento, em noite. Faz-se mágica em plena luz do dia, enquanto a futura mãe parece se expor em um quarto escuro mesmo estando sob o ardor do astro-rei. A pele transpira diante a lente, as gotas escorrem pela pele testemunhado pelo grande olho que tudo vê. O grande observador de vidro, capaz de eternizar para sempre o que só ele vê, através da fantástica lente. Utilizo a sub-exposição para que a correta quantidade de luz sensibilize o sensor assim como esperamos que a arte sempre sensibilize o telespectador. Pouco a pouco o quadro vai se formando. Arte, sensualidade e fotometragem se misturam defronte um ângulo não revelado, mesmo em céu e sol a pino. E assim vivo mais um momento, mais um exato instante em que as cores se revelam. Retrato o esplendor da beleza na pose da futura mãe e tudo mais que foi visto através da estática lente. E como foi dito antes, essa é a lei.

(Texto L.Maldonalle)

Quadro da dor.

Enquanto a noite cai e a lua tudo observa com seu brilho prata, Ela pensa em como será o outro dia. No açoite do relento, o frio lhe lembra do que não é cômodo e da insegurança do amanhã. De como somos todos iguais, sob a redoma da noite e o fulgente brilho do luar. O olhar pensativo e a coragem pesam em sua face ao mesmo tempo em que sua prole indefesa recosta-se em seu colo. Aos olhos dos transeuntes podem ser a escória da sociedade ou a simples falta de oportunidade ao cidadão comum. Poderiam ser predadores e não presa se a vida fosse baseada no pêndulo da justiça. A criança, ainda alheia ao futuro ou as necessidades do presente, se acomoda no ventre da mãe levando a mão aos olhos enquanto Morfeu, o Deus grego dos sonhos, parece lhe beijar a face. Renegados como um fruto proibido ou um par de proscritos, mãe e filho atravessam a noite prostrados como em uma postura de súplica e sequer notam a lente a fitá-los. E imóvel, o fotógrafo prende a respiração enquanto eterniza em um clique o cotidiano ali representado em um quadro da dor.

(texto: L. Maldonalle)

Santuário dos romeiros

Através de uma via expressa em seus 18 quilômetros de distância, romeiros vão em sua direção. Atraídos pela fé e a religiosidade como a um imã. Os postes altos em forma de castiçais iluminam a fachada dando as boas vindas aos fiéis, que aos milhões caminham e se curvam em devoção. O lugar sagrado que serve humildemente a humanidade Projetando graça e proteção. A outrora capela construída com folhas de buriti hoje ostenta uma hercúlea construção em concreto. O santuário destinado a promessas, curas e o mais sincero alento aos romeiros. Trindade, a cidade que abrigou o artefato feito em barro em forma de medalha. Esta, considerada miraculosa, atraindo os devotos de todos os cantos do país. E aqui, bem no meio da região Centro-Oeste, a câmera paira auspiciosa em face da basílica. E como sinal de reverência, capta a imagem pura e simples, como a alma de um anjo.

(Texto: L. Maldonalle)

Monarca de um Reino Imaginário

Alheio e estático, é desta forma que ele parece observar a tudo e a todos enquanto a noite o ilumina trazendo consigo os seus temores. Em sua simplicidade e desapego parece abster-se de qualquer pormenor ali presente. Sua altura incomum ou o grande peso que lhe cai, em mesma proporção, parece se agigantar diante os observadores e críticos transeuntes. O meio-fio com a característica margem branca serve como assento. Os pés sujos e cansados se confundem com o asfalto a sua frente. O olhar benevolente envolto em um constrangimento nos inspira a sermos mais humanos. Sentado como um rei em seu trono feito de nada vê as letras se curvarem como súditos à sua frente. E com a pseudo pose real o monarca de um imaginário reino em seu trono ao luar, volta seu olhar para a lente e por um breve e insólito momento parece ser ele quem tudo registra, em sua lente invisível, deixando de ser paisagem para o imenso retrato em preto e branco, defronte à câmera no imperturbável e frio relento.  

(Texto: L. Maldonalle)

Por quem os sinos dobram

Ele poderia estar no alto de uma torre, tão alta que parecia poder tocar os céus, ou em uma simples capela de um vilarejo, como símbolo mor de segurança e fé. O cone oco de cor cinza às vezes construídos em bronze ou cerâmica. Um dispositivo de som, um instrumento, eu diria, capaz de ser ouvido em meio ao zumbido da guerra ou em uma noite repleta de raios e relâmpagos. Pode contornar o pescoço de uma vaca em seu minúsculo tamanho como um adereço criado por camponeses, ou pode pesar toneladas em suntuosas igrejas ao redor do mundo. Seu badalo, a lingueta de bronze que dança de um extremo ao outro, ressoa com imensidão ao ser golpeada ecoando alto, chamando a atenção. A cada toque parece vibrar mais alto e assim poderia fazer por horas, jamais se atrevendo a diminuir o ritmo se fosse preciso. Assim como foi fonte de inspiração e deu título ao poema de Ernest Hemingway, ‘’Por quem os sinos dobram”, em um belíssimo tratado sobre o absurdo da guerra, serviu de inspiração para a lente e antes que dançasse sem parar em seu alegre badalar, reivindicando a presença dos fiéis, foi registrado em seu momento estático em total discrição e modéstia à mercê do fotógrafo e sua lente.

(texto: L. Maldonalle)

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